quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Projeções

 


Ela sentou em frente ao notebook.

Passado o primeiro susto, passado aquele dia, o impacto que aquela conversa havia causado, sentia-se preparada para respondê-lo.

Não, não ia ligar. Ligações sempre a travavam. Tinha um milhão de coisas em mente para dizer, mas, quando falava, sentia que as palavras a traiam. Elas faziam toda aquela aflição ficar pequena e sem sentido. Melhor deixar tudo por escrito mesmo, pensou. O preto no branco. Registrado e assinado. Nada por dizer. Nada subentendido. Nada esquecido. Nada da sensação:" Droga, não falei aquilo!" Seriam as suas palavras. Palavras escritas espontaneamente, sem pressa ou interrupções. Sem contestação da outra parte. Melhor assim...

Escreveu:

- Sei que você não teve a intenção. Sei que você não esperava me magoar com as suas atitudes. Eu sei. Na verdade, nem eu esperava que você pudesse ecoar tão forte em mim. E eu tentei achar um motivo para seguirmos juntos, mas não há. A culpa não é sua. Entenda: a culpa foi toda minha. Projetei em você algo que não era seu. Na minha ânsia por te ter ao meu lado, levei no meu coração um homem que nunca existiu, um homem que seria perfeito para mim, para os meus desejos. Fantasiei você. Acreditei em algo que você não possuía. Exigi atitudes que não eram suas, atitudes que nem eram minhas. Te escrevi, te rimei de acordo comigo, de acordo com meus livros, não de acordo com você.

Carreguei a ilusão estampada na testa e só eu não vi - de imediato.

Aquilo me magoou, porque, no projeto (minimamente calculado) que fiz de você, não havia essa característica, esse detalhe. Eu me surpreendi com seu jeito, porque não te conhecia. Você me encantou e eu te tranferi os requisitos. Foi isso.

Não adianta procurar culpados em outras pessoas, em você. E é difícil admitir isso, porque passamos a vida inteira apontando responsáveis para os nossos fracassos. Seria tão mais simples aceitar que só eu respondo por mim, pela minha vida, pela minha (in)felicidade. A culpa é de minha autoria e encargo. MINHA! E escrevo em letras destacadas, pois preciso aceitar esse fato. Criei expectativas que você não pôde (e nem poderia) atender...

A culpa é desse meu coração relutante, dessa minha mania de querer adivinhar as pessoas, da minha idéia limitada (e utópica, eu sei) do 'homem ideal', da minha imaginação pra lá de maluca e ilusória. Minha culpa, meu pecado, meu erro... Mas também minha redenção, uma vez que entendi toda a confusão que criei entre nós dois. As consequências já foram expostas, colacadas na mesa. Entendi que devo carregar minha felicidade nos ombros, não despejá-la em cima de um homem, de você.

Sinto muito por todo esse engano, por todo o transtorno que causei. Mas agora que te conheço, não podemos continuar. Você não se encaixa naquilo que aguardo para mim, naquilo que pode vestir meus sonhos e dias, no homem que me desarma. Pelo contrário, você me armou toda, me muniu, me deu as armas capazes de te expulsar de mim. Agora, pode seguir o caminho de quem você realmente é. Já desliguei o projetor, rasguei o rascunho... E eu ficarei aqui. Sem maiores especulações, sem mais palavras, e com outras culpas que ainda terei de admitir (e me curar).

Déborah Simões Colares

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